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Bibliotecas Escolares numa Plataforma Moodle? Porquê e para quê?

Será que as Bibliotecas escolares podem ser, na escola, algo próximo das "novas praças públicas" de que fala Talscott (2008) - "locais de encontro movimentados onde os consumidores regressam para usufruir de experiências enriquecedoras e envolventes. Afinal as relações são a única coisa que não se pode transformar num produto"

Bibliotecas Escolares numa Plataforma Moodle? Porquê e para quê?

 

 

 

 

 

 

 

Madalena Pinto dos Santos *

 

Junho de 2009

 

O desafio que me foi colocado de partilhar com os leitores desta newsletter algumas ideias sobre a utilização da plataforma Moodle no âmbito das Bibliotecas Escolares levou-me a procurar clarificar, para mim própria, as razões que me levam a considerar que essa utilização pode ser relevante nas nossas escolas. E é isso que venho aqui fazer 'em público', ou seja, venho pensar em voz alta sobre este tema.

Desde muito cedo que considero que a escola tem de cumprir dois papeis muito importantes na sociedade que, por vezes, me parecem um pouco antagónicos ou pelo menos de difícil conciliação. Por um lado, tem a responsabilidade de 'passar o testemunho', ou seja, de corporizar a memória do que somos como sociedade para as gerações mais novas. Mas, por outro lado, tem um papel fundamental no desenvolvimento de cidadãos actuantes, críticos e responsáveis para uma sociedade que eles próprios terão de construir. Ou seja, para um mundo que virá e que não prevemos nem antecipamos. Mas esse papel - de contribuir para a passagem do passado para o futuro - só pode ser concretizado no 'aqui e agora', no presente que é o espaço e tempo em que somos capazes de actuar. Com este pressuposto, como é que eu vejo que a utilização das tecnologias de informação e comunicação (TIC), em particular, as plataformas Moodle pode ser útil?

As TIC têm actualmente uma presença muito forte no nosso quotidiano e um papel muito relevante na organização das nossas sociedades. Talvez por essa presença parecer já tão normal nem nos apercebemos de como, através do uso dessas tecnologias, temos vindo a desenvolver formas de interagir, de conhecer e de trabalhar muito diferentes daquelas em que a grande maioria dos adultos de hoje (e dos professores) se formaram. Nós somos os "imigrantes digitais" enquanto os nossos alunos são "nativos digitais" (*), ou seja, já nasceram num ambiente organizado pelas e com as tecnologias digitais. E esta nova geração é diferente, é a geração Net, como Don Tapscott, em 1997, denominou a 1ª geração de jovens socializados na era das tecnologias digitais - "o modus operandi da geração Net é a ligação em rede, estes jovens crescem a interagir uns com os outros, crescem on-line e trazem com eles uma nova ética de abertura, participação e interactividade" (2008, pp. 56, 57).

 

Por outro lado, assistimos actualmente a um rápido desenvolvimento científico e tecnológico, assim como a grandes mudanças nas formas de desenvolver o próprio conhecimento. Este, mais do que nunca, não pode ser encarado como algo estável, duradouro, único, nem como algo que pode ser desenvolvido de forma isolada. A colaboração é uma palavra-chave cada vez mais forte e não é só no âmbito do desenvolvimento de conhecimento na esfera científica. Tapscott (2008) no seu livro Wikinomics, alerta-nos precisamente para as mudanças que estão a ocorrer no âmbito da gestão e da economia (em grande parte pela evolução das tecnologias digitais) e discute como essas mudanças apelam ao desenvolvimento de novas competências "aprender a criar em conjunto e a envolver-se num grupo em constante alteração de parceiros auto-organizados está a tornar-se uma aptidão essencial" (pg. 27).

Estamos, então, perante um quadro que torna cada vez mais difícil a existência de um consenso social sobre o que esperar da educação e da escola enquanto instituição, de como a organizar e sobre os papeis que deverão assumir os actores mais directamente envolvidos nesse processo - alunos e professores.

As Bibliotecas Escolares/Centros de Recursos são espaços das escolas que me parecem privilegiadamente colocados para ajudar a cumprir, em simultâneo, os dois papeis que anteriormente falei. Elas são, em geral, espaços com flexibilidade para se ajustar ao que já existe mas também ao que se começa a desenhar como necessário. Elas estão numa posição charneira da organização escolar que pode ser uma mais valia para que todos (professores, alunos, mas também pais e comunidade) possam explorar vias diferentes de acesso mas também de partilha e construção de conhecimento, de desenvolvimento das tais aptidões e competências que parecem ser relevantes tanto pelas características dos nossos alunos, como para o que se começa a antecipar como os espaços de acção em que eles terão de desenvolver a sua actividade de adultos.

Será que as Bibliotecas escolares podem ser, na escola, algo próximo das "novas praças públicas" de que fala Talscott (2008) - "locais de encontro movimentados onde os consumidores regressam para usufruir de experiências enriquecedoras e envolventes. Afinal as relações são a única coisa que não se pode transformar num produto" (p. 53)?

É nesse âmbito que me parece que a utilização da plataforma Moodle pode contribuir de forma positiva, embora não seja a única ferramenta digital com que podemos e devemos contar. Mas, para tal, ela deve ser explorada e vivida nas suas vertentes mais poderosas, ou seja, como espaço de acção, de partilha e construção. Esta plataforma, embora já muito presente nas nossas escolas, ainda é maioritariamente utilizada (veja-se o Estudo Nacional sobre a utilização de plataformas em Portugal, feito em 2008) na sua vertente de difusão de informação assumindo, assim, funções próximas das de um site. Mas essa é uma vertente ainda "pobre" da utilização do Moodle, embora seja compreensível que a sua utilização se tenha iniciado dessa forma. As suas potencialidades e, em particular, a flexibilidade de se ajustar a diferentes objectivos, formatos, dinâmicas e públicos, permitem que ela seja muito mais do que um site. Com as ferramentas que são disponibilizadas nesta plataforma podemos construir espaços de trabalho em que os utilizadores sejam convidados a assumir papeis bastante activos, podemos usá-la como uma plataforma de trabalho, de acção e construção colaborativa e colectiva. Ou seja, os utilizadores podem ser, de facto, participantes com voz e com responsabilidades. Podemos esbater (com diferentes graus de liberdade e de abertura) as paredes das nossas salas e das nossas escolas permitindo e fomentando, por exemplo, que se discutam e debatam ideias em comunidades, que se participe em espaços públicos ou semi-públicos entre pares que podem já não se limitar a ser os habituais colegas da turma, ou os professores da escola, mas que podem alargar-se aos encarregados de educação ou familiares, aos escritores que vistam as bibliotecas, ou até aos parceiros de projectos de outros países.

Estas possibilidades são concretizáveis com a exploração criativa de algumas das ferramentas simples de criação de actividades que estão disponíveis no Moodle. Claro que o que se pode fazer depende sempre (i) da intencionalidade pedagógica que se tem (que tipo de atitude se quer promover, que competências se querem desenvolver, que papeis se quer fomentar nos utilizadores...) e (ii) da disponibilidade de algumas pessoas assumirem, de início, um papel mais activo na dinamização e na sustentação das interacções. Mas, aos poucos e de forma planeada e acompanhada, a dinâmica pode ir sendo alargada a outros parceiros como, por exemplo, alguns alunos ou até alguns encarregados de educação. Podem utilizar-se: (i) foruns para se promover debates em torno de alguns livros ou filmes; (ii) wikis para permitir a escrita colaborativa (por exemplo, do tipo "quem conta um conto acrescenta um ponto"); (iii) glossários para organizar termos específicos de um dado tema (ou em várias línguas) contando com a colaboração dos alunos e pais, ou para fazer o levantamento de recursos entre um grupo de professores (por exemplo, os DVD's que os professores de um dado departamento possuem e que podem partilhar entre si para uso nas aulas). Infelizmente, a maioria das plataformas das escolas não têm muitos espaços acessíveis a visitantes, o que torna mais difícil que se vá aprendendo com as experiências uns dos outros. Mas o espaço Moodle de uma BE/CRE podia ser um espaço aberto à comunidade, como é o caso, por exemplo, do espaço da BE/CRE do Agrupamento de Escolas de Campelos http://moodle.escolascampelos.com/course/view.php?id=109  onde, mesmo com ferramentas simples já se vê vários alunos a participar.

 De início, pode pensar-se que as maiores dificuldades decorrem do domínio técnico das ferramentas mas, de facto, as mudanças mais exigentes são ao nível da alteração de hábitos de trabalho, de padrões de interacção e da organização das práticas escolares. E para que essas mudanças ocorram é necessário tempo, mas também a vontade e disponibilidade para se caminhar uns com os outros, para não se fazerem percursos de forma isolada mas entre pares, em interajuda e em colaboração. Há comunidades em vários países onde se trocam ideias, se partilham experiências, se tiram dúvidas sobre a utilização da plataforma Moodle. Aqui em Portugal há um espaço Moodle (http://moodle.crie.mec.pt/course/view.php?id=400) que pode ser um ponto de partida para navegar por outros mares e onde se encontra, por exemplo, dois Guiões com orientações para a dinamização de áreas de trabalho para alunos e para professores que podem ser bons auxiliares.

http://moodle.crie.mec.pt/file.php/400/guioes_moodle/profs_1_1_.pdf  
http://moodle.crie.mec.pt/file.php/400/guioes_moodle/alunos_1_1_.pdf

Bibliografia

Don Tapscott (1997), Growing up Digital: the Rise of the Net Generation, New York: McGraw-Hill -

Don Tapscott e Anthony D. Williams (2008), Wikinomics - a nova economia das multidões inteligentes, Lisboa: Quidnovi.

Neuza Pedro, Francisca Soares, João Filipe Matos, Madalena Santos (2008), Utilização de plataformas de gestão de aprendizagem em contexto escolar - estudo nacional, RTE/PTE - DGIDC acedido em 21Junho09 em http://nonio.fc.ul.pt/actividades/sem_estudo_plat/relatorio_final_estudo_plataformas_2008.pdf

Nota de rodapé

(*) "nativos digitais", termo proposto por Marc Prensky para designar uma geração que nasceu e cresceu numa sociedade recheada e organizada por tecnologias digitais, tais como computadores, telemóveis, videojogos, internet, entre outras. (ver http://www.marcprensky.com/) para comparar as características dos nativos digitais com os imigrantes digitais http://www.slideshare.net/erionline/nativos-digitais-versao-compativel


*Madalena Pinto dos Santos
Professora da Escola Básica Integrada Dr. Joaquim de Barros
Membro do Centro de Investigação em Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa