Colaboração PORDATA / RBE
Margarida Toscano *
Em 1960, a população de Portugal rondava os 9 milhões de habitantes (8.889.392 indivíduos). Em 1961, estavam matriculados no pré-escolar 6.528 alunos (0,07% da população); no ensino básico 1.066.471 (11,94%); no ensino secundário 13.116 alunos (0,15%). Os 11,94% da população matriculada no ensino básico distribuía-se por 9,94% no 1º ciclo, a esmagadora maioria; 0,87% no 2º ciclo; e 1,13% no 3º ciclo. Ao nível do ensino superior, o nº de alunos inscritos em 1961 não chegava a 1%. Números bem distantes da actualidade e cuja evolução podemos observar no gráfico abaixo:
Fig. 1 - Alunos matriculados desde 1960. Fonte: Pordata (gráfico ampliado)
Saltando da educação para outras áreas, como a população ou a saúde, continuamos a encontrar diferenças, por vezes, abissais. Ainda em 1960, a taxa de mortalidade infantil era de 75º/oo (75 por 1000); nos últimos 5 anos tem variado entre os 3,3º/oo e os 3,6º/oo, uma taxa inferior à média europeia, que se situa ainda acima dos 4º/oo (4 por mil). O rácio de médicos por mil habitantes era, em 1960, de 79,8º/oo; em 2008, a taxa é de 377,1º/oo. Em 1960, o nº total de consultas médicas foi de cerca de 8 milhões; em 2008, situou-se acima dos 40 milhões. Os exemplos podiam multiplicar-se, a conclusão, seria a mesma:
«Se por algum exercício de ficção os portugueses de hoje acordassem no ambiente do início dos anos 60, sobretudo junto ao litoral e nas grandes zonas urbanas, sentir-se-iam bastante desconfortáveis e, por certo, com uma enorme estranheza em relação a tudo o que acontecia em seu redor». (Rosa e Chitas, 2010, 9).
Os milhares de dados e informações que nos permitem traçar um quadro objectivo do país que existia há 50 anos, hoje irreconhecível, compreender como foi construindo a modernidade e em que situação se encontra actualmemte em áreas fundamentais para a vida individual e colectiva foram, desde Fevereiro de 2010, disponibilizados pela Pordata - Base de Dados de Portugal Contemporâneo. Trata-se de um serviço criado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS)[1] , uma instituição privada sem fins lucrativos que tem por finalidade promover e divulgar o conhecimento da realidade portuguesa e dos seus problemas, contribuindo para uma sociedade civil esclarecida e para estimular o debate livre, informado e crítico entre os cidadãos.
Imagem de início do sítio da Pordata
Numa primeira fase, a Pordata limitou-se a dados estatísticos sobre Portugal e os portugueses; desde o passado dia 3 de Novembro alargou a informação aos países da União Europeia e do Espaço Schengen. À Pordata - Base de Dados de Portugal Contemporâneo, a FFMS acrescentou a Pordata Europa, outro espaço em que a informação é gratuita e acessível a todos os interessados - estudantes, investigadores, docentes, simples cidadãos - sob a forma de dados estatísticos dos diferentes países.
Dados estatísticos fiáveis, relevantes e rigorosos que têm por fontes o Instituto Nacional de Estatística (INE) e outras entidades oficiais da administração pública no caso de Portugal; o Eurostat e os respectivos Institutos Nacionais de Estatística relativamente aos outros países. Dados que são organizados e contextualizados pela Pordata com a preocupação de os tornar inteligíveis e facilmente compreensíveis mesmo aos olhos do cidadão comum, para quem a crueza das estatísticas é, frequentemente, pouco significativa. Podemos aceder às séries estatísticas através de temas e subtemas, consultar os dados em forma de tabelas, gráficos estáticos ou dinâmicos, relacionar variáveis distintas, calcular automaticamente percentagens e variações, recorrer à ajuda de um glossário, transformar o quadro que consultámos num documento PDF, criar uma área pessoal de trabalho ou inclusive consultar os metadados. Estes últimos são parte integrante do rigor, fidedignidade e inteligibilidade da informação estatística.
Como salientam a directora da Pordata, Maria João Valente Rosa e Paulo Chitas, todos os números têm uma "história", uma história escondida que resulta do contexto metodológico em que foram produzidos. É essa "história" que nos permite saber com rigor de que é que estamos a tratar, a que é que nos referimos, que significado primeiro têm os números que encontramos. Daí a importância do acesso e consulta dos metadados.
Só pelo que temos vindo a apontar, a Pordata já merecia uma ampla divulgação pela Rede de Bibliotecas Escolares. Mas importa explicar por que é que o seu potencial pedagógico ultrapassa bastante o que já foi dito.
Os dados são elementos não interpretados que resultam de observações, do registo quantitativo ou qualitativo de ocorrências e que, isolados, não têm sentido. Exemplos: "9 milhões de habitantes"; "13.116 alunos no ensino secundário"; "0,15% da população". Quando os dados são processados, isto é, relacionados, contextualizados, estruturados e padronizados de forma a tornarem-se potencialmente significativos e compreensíveis, passamos a ter informação. Os exemplos citados passam a constituir informação quando construímos enunciados como estes: "Em 1961, Portugal tinha 9 milhões de habitantes. O total de alunos matriculados no ensino secundário era de 13.116, representando 0,15% da população do país." No entanto, ainda não estamos no nível do conhecimento. Efectivamente, para chegarmos a esse patamar é necessário interpretar a informação, analisando e explorando os seus diversos sentidos, contextualizando-os, relacionando a nova informação com outra já conhecida; é necessário procurar relações de causa e efeito que expliquem os dados, a informação e as variações encontradas. No nosso exemplo, onde sobressai o baixo nº de alunos a frequentar o secundário, (e partindo do princípio que estávamos a estudar uma questão como "a escolaridade dos portugueses" ou outra análoga), importaria agora perceber os factores que explicam aquela percentagem tão baixa; verificar se era uma situação generalizada na década de 60, comparando com dados de outros países; detectar algum efeito marcante em outras áreas da vida social; produzir novas informações e inferir conclusões que, à partida, desconhecíamos. Em suma, o nível do conhecimento implica sobretudo competências reflexivas, lógicas e críticas.
Dados, informação e conhecimento. (Gouveia, 2003, 1-2) [quadro ampliado]
A Pordata, já dissemos, fornece-nos dados que receberam um primeiro tratamento inerente ao próprio trabalho científico. Mas o que continua a disponibilizar é sobretudo um manancial de dados que, por si só, não se transforma em conhecimento nem aumenta a nossa compreensão sobre Portugal e o mundo; exige actores sociais capazes de transformar dados em informação e informação em conhecimento. Nesse sentido, a Pordata é um instrumento com grandes potencialidades pedagógicas no contexto da escola e da biblioteca escolar. A quantidade, a diversidade e o rigor das séries estatísticas, pela primeira vez acessíveis a partir do mesmo ponto de entrada, constituem uma excelente matéria-prima que pode ser usada em benefício do exercício do pensamento, do raciocínio e da imaginação. E que como fonte de informação para a elaboração de trabalhos curriculares obriga a ultrapassar o hábito do "copiar e colar" que muitos alunos usam e alguns professores toleram. Efectivamente, como produzir um trabalho escolar apenas copiando e colando séries estatísticas?

Conscientes deste potencial e perseguindo o objectivo comum de contribuir para a formação de cidadãos informados e críticos, FFMS e RBE acordaram organizar um plano de formação sobre a Pordata com escolas secundárias, tendo sido feita uma primeira sessão de teste com quatro escolas do concelho de Sintra. Confirmado o interesse da formação e a adequação do formato das acções, planificaram-se cerca de 20 sessões de Norte a Sul do país, dirigidas a professores bibliotecários e a pequenos grupos de alunos do ensino secundário com capacidade para, posteriormente, ensinarem aos seus pares aquilo que aprenderam. Com o formador da Pordata, Bernardo Gaivão, munido de "armas e bagagens", começámos em Vila Praia de Âncora e fomos descendo até Albufeira, deixando a cidade de Lisboa para o final.
As escolas abrangidas pela formação comprometeram-se não só a organizar sessões internas sobre a Pordata, como a encontrar um professor e uma turma disponíveis para realizar um trabalho curricular, recorrendo essencialmente àquela base de dados como fonte de informação. Criou-se um regulamento mínimo, o qual exige que os trabalhos sigam um modelo e normas academicamente reconhecidas no que respeita à estrutura e apresentação do tema seleccionado, às citações e à bibliografia. Os melhores trabalhos - escritos, audiovisuais, gráficos ou infográficos - serão apresentados numa sessão pública final a realizar em Maio.

Infografia criada pelo Jornal I a partir da Pordata. Fonte: Infografia
As vinte e duas sessões realizadas, 19 das quais no passado mês de Outubro, abrangeram 61 concelhos, 83 escolas e professores bibliotecários, 334 alunos e 31 coordenadores interconcelhios, conforme o quadro abaixo designado "Plano de Formação". Para além duma estreita colaboração entre o Gabinete RBE e a FFMS, outras acções e actores foram essenciais à operacionalização deste plano de formação: o apoio dos coordenadores interconcelhios; o envolvimento das direcções das escolas e o empenho dos professores bibliotecários, nuns casos acolhendo o formador e a formação, noutros, a maioria, facilitando a participação e deslocação dos alunos.
Cerca de 10% dos professores bibliotecários e coordenadores interconcelhios enviaram-nos comentários escritos em que referem a utilidade desta formação para professores e alunos e o interesse e adesão suscitados pela Pordata. Exemplos desses comentários podem ser consultados no bbb - blogue da biblioteca da ES Avelar Brotero.
Acrescentamos ainda que uma das primeiras escolas que integrou este plano, a Escola Secundária Matias Aires (Cacém, Sintra), divulgou recentemente os documentos de apoio já produzidos para auxiliar todos os alunos da escola a explorar a Pordata e que complementarão o Manual de Formação produzido por esta.
Como referiram o Prof. António Barreto e a Dra. Teresa Calçada, presentes na última sessão realizada em Lisboa, não há cidadãos livres e esclarecidos, capazes de boas decisões, sem informação isenta, independente e rigorosa nem competências para aceder e tratar essa mesma informação. Unidos neste desiderato de contribuir para a formação de cidadãos informados e letrados (no sentido acima descrito, de sujeitos com competências de informação), Fundação Francisco Manuel dos Santos e Rede de Bibliotecas Escolares vão agora acompanhar os trabalhos que alunos e professores estarão a produzir nas escolas, assim como proceder a correcções ao plano de formação que a experiência revelou necessárias. Esperamos que os trabalhos tragam interpretações e ideias para o conhecimento da realidade portuguesa, e para animar o debate final previsto para Maio.
Plano de Formação

FONTES BIBLIOGRÁFICAS
FUNDAÇÃO FRANCISCO MANUEL DOS SANTOS - Pordata: Base de Dados Portugal Contemporâneo [Em linha]. Lisboa: FFMS, 2009, actual. contínua. [Consult. 28 Outubro 2010]. Disponível em: <http://www.pordata.pt/>
GOUVEIA, Luís Manuel Borges - Dados, informação, conhecimento [Em linha]. 2003. [Consult. 29 Out. 2010]. Disponível em: <http://www2.ufp.pt/~lmbg/formacao/mcom_4.PDF >
ROSA, Maria João Valente e CHITAS, Paulo - Portugal: os números. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010. (Ensaios da Fundação). ISBN: 9789898424051.
[1] Francisco Manuel dos Santos, nascido em 1876, na Beira Alta, foi comerciante no Porto e depois em Lisboa, onde adquiriu em 1921, com outros sócios, a "mercearia fina" Jerónimo Martins, no Chiado. Os seus descendentes fundaram o actual grupo Jerónimo Martins detentor, entre outros, da cadeia de supermercados Pingo Doce.
* Margarida Toscano
Gabinete da RBE
